segunda-feira, 14 de setembro de 2009

As lutas contra a intolerância

Que fazer contra o intolerável? No Brasil, hoje, não temos leis contra a sodomia ou afins, ao contrário do que ainda ocorre em alguns países, na sua maioria islâmicos. Não há, portanto, perseguição política contra os gays, afinal, não nos é negado, em virtude da sexualidade, nenhum direito político. O problema aparece quando se fala de direitos civis. Em tese, nenhum nos é negado, mas, sutilmente, alguns deles nos escapam pelo simples fato de contemplarem a união entre um homem e uma mulher apenas. Nossos relacionamentos amorosos não têm respaldo jurídico, apesar de alguns avanços na jurisprudência com relação à concessão de certos direitos extensivos aos cônjuges. Mas não é do direito ao casamento ou união civil que quero falar. É do combate à assim chamada homofobia. Digo "assim chamada" porque as conotações patologizantes (fobias contam, na psicopatologia, entre os distúrbios de ansiedade) do termo não me agradam. O que chamamos de homofobia é a reprovação do comportamento homossexual. Essa reprovação tem níveis os mais variados, desde a relutância em admitir uma conduta que se foi ensinado a considerar errada ou mesmo perversa, até o ódio mais encarniçado capaz de levar à agressão física. E não é sensato pôr todas essas variadas formas de reprovação no mesmo nível e taxá-las todas de patológicas. Não, a relutância que uma senhora idosa ou um religioso tenham em aceitar a conduta homossexual não estão no mesmo nível de um ataque furioso por parte de um vândalo qualquer. O ponto é que a reprovação, por ela mesma, não constitui uma afronta a mim enquanto cidadão. Quando se fala em criminalizar a "homofobia", penso nos equívocos que podem estar envolvidos ou que podem surgir daí. Não digo que a lei, como um todo, seja inválida. Se um estabelecimento privado de frequentação pública (como um restaurante, por exemplo) quiser excluir algum cliente seja em razão de sua orientação sexual ou cor da pele, não é um erro que ele esteja exposto a sanções legais. Mas eu me pergunto se esse é o único tipo de luta à nossa disposição. Ou mesmo se esse é o tipo mais eficaz de luta.

Há alguns meses atrás, ouvi uma palestra dada por Cecília Coimbra, fundadora do movimento "Tortura nunca mais". Sua fala me fez repensar algumas coisas. Ela falava da vontade de muitos membros do movimento em penalizar os torturadores pelos crimes cometidos na ditadura. Cecília dizia-se contrária a isso e muito preocupada com o que ela chamou de crescimento de uma vontade de punir. Todos querem punir os que os ofenderam ou atingiram. Não faz sentido e eu não vou contribuir com alguém que quer punir um general "de pijama", um homem já velho que não ameaça mais a ninguém, dizia ela. Seu intento ao fundar o "Tortura nunca mais" era lembrar, lembrar a todos do que houve, para que o esquecimento não facilitasse a ocorrência de horrores semelhantes. Penso que Cecília Coimbra apontou para uma ferida que é também nossa, que é dos movimentos gays e de todos aqueles que eles, de uma forma ou de outra, representam. Essa vontade de punir provoca uma inflação do judiciário, concedendo ao direito tarefas e poderes que, se pensarmos melhor e de modo mais geral, não queremos conceder. Será que é através do direito e das leis que conseguiremos um ambiente mais favorável e indivíduos menos dispostos não apenas a nos reprovar, mas - o que é o que interessa fundamentalmente - mais dispostos a nos respeitar enquanto cidadãos?

Penso nos beijaços. Considero-os uma das melhores formas de ação que os movimentos gays já realizaram. Uma lei pode garantir que um estabelecimento hostil a gays ganhe uma multa ou outra sanção qualquer. Mas qual o efeito de algumas dezenas ou centenas de pessoas se beijando em frente a esse mesmo estabelecimento? A multa é "invisível", só repercute entre a justiça e o réu. Um beijaço cria um embaraço público. O poder que um beijaço tem de constranger um estabelecimento é muito maior. A multa é paga e está tudo resolvido, mas o que fazer com uma multidão chamando a atenção para o seu estabelecimento? Certamente, com mais ou menos gosto, os donos serão obrigados a admitir que um beijinho de um casal (outrora condenado) é muito menos chamativo e mais fácil de tolerar do que todo um movimento que tem o poder de lançar sobre o lugar a pecha de intolerante, o que afastaria muitos possíveis clientes.

Queria, com este post, chamar a atenção para o modo como pensamos ser possível lutar por nossas liberdades. Se direitos são, antes de tudo, liberdades, bem pode ser que muitos deles sejam conseguidos com mais eficácia através de meios não jurídicos. Se posso dispensar a mediação do judiciário e provocar um efeito ainda maior, por que me fazer dependente dele? Por que atribuir ao direito uma tarefa e poderes que eu mesmo posso cumprir, e com melhores resultados? Ademais, atos como o beijaço, tendem a fortalecer os gays como grupo político dentro da sociedade, como um grupo organizado e atuante na defesa de suas liberdades, como sujeitos políticos, enfim, em vez de alimentar sentimentos de rejeição e ressentimento, que estão associados àquela vontade de punir de que falava Cecília Coimbra.

domingo, 12 de julho de 2009

Teoria Queer

Desventuras de um tradutor. Apenas cito. Desnecessário comentar, neste caso.

"Mais recentemente, ela [a história da sexualidade inspirada na obra homônima do filósofo francês Michel Foucault] tem promovido a Teoria das Bichas, que louva a prerrogativa das perspectivas contra-indicadas do ponto de vista que as ideologias definem como normal. Segundo a Teoria das Bichas, a palavra 'perversão' não é nada mais que um anacronismo desagradável e moralizador que deveria ser analisado segundo a sua história ou então deveria ser usado ironicamente como símbolo do estigma da desaprovação social. Assim o termo desdenhoso 'pervertido' torna-se um emblema de orgulho em vez de um estigma, e a homossexualidade passa a ser simplesmente uma variante de uma gama de sexualidades polimorfas, que diferem da heterossexualidade só no que diz respeito ao reconhecimento, à aprovação e à definição sociais.

A Teoria das Bichas também reconhece o bode expiatório das 'sexualidade anômalas', que permite às 'pessoas normais e de boa índole' sentir-se diferentes dos (superiores aos) 'pervertidos' repugnantes. Os bodes expiatórios recebem os medos projetados e renegados pelo lado negro da 'normalidade' e são levados a se sentir envergonhados, sujos e pecadores. Porém, o enaltecimento da 'bichice' pode ser inadequado (política e pessoalmente) se usado para rejeitar a dificuldade real de uma subjetividade pervertida - por exemplo, que a 'solução' criada na perverção para a angústia da sexualidade é a melhor situação possível, melhor que a sexualidade branda, 'normal' e insípida.

O determinismo social faz supor que a repressão seja um produto da censura exercida pelas instituições jurídico-discursivas, ou sociedade, sem envolvimento psicológico. No que a Teoria das Bichas festeja as conotações de repugnância, depravação e crítica moral implacável, ela o faz insinuando que tais conotações servem aos acusadores. A prática liberal associada a política 'gay' procura substituir o conceito de perversão pelo de 'neo-sexualidades', menos desagradável. Os teóricos bichas e os liberais estariam certos quanto ao seu objetivo e às suas estratégias? Qual é a diferença entre aberrações, perversão e variantes sexuais?"

Claire Pjazckowscka. Perversão. Tradução de Carlos Mendes Rosa. Rio de Janeiro, Relume-Dumará/Ediouro, 2005, pp. 7-10 (Coleção "Conceitos da psicanálise" da Revista Mente e Cérebro)

sexta-feira, 3 de abril de 2009

O intolerável


Milk. O filme de Gus Van Sant é notável. Aqui proponho uma reflexão sobre o filme. A trajetória política de Harvey Milk (1930-1978) começa com a hostilidade com a qual é recebido no Castro, então bairro irlandês, e portanto católico, da Califórnia. Mas essa hostilidade não aparece por ele viver ali. Quando ele pretende abrir um estabelecimento comercial e procura o líder da associação de comerciantes é que os obstáculos se apresentam. Desde a promessa do líder da associação de que, caso ele abrisse seu estabelecimento, o mesmo estaria fechado no dia seguinte, até a declaração do policial de que, ali, a polícia fazia valer a lei dos homens e a de Deus (e só Deus sabe o que passa pela cabeça das pessoas quando elas pretendem fazer valer aquilo em que ele mesmo decidiu não interferir), é no espaço público, nas ruas do Castro, que Milk viu contra si erguerem-se barreiras. Se ele pretendesse restringir sua vida às paredes internas de seu apartamento, talvez não tivesse que confrontá-las. Os moradores do Castro não intentavam exterminar os gays que ali viviam - e estes eram muitos, que vieram a se tornar muitos mais com o desenrolar dos acontecimentos. O vício não ameaça a virtude por sua existência. Desde que permaneça como vício, como algo que existe marginalmente, como exceção condenável à regra, tudo se encontra na mais perfeita ordem. Esta só vacila, só sente a ameaça de ser subvertida (em prol de uma nova ordem, claro está), quando aquilo que estava condenado a existir nas sombras ameaça vir à luz, reivindicar um lugar sob a claridade do sol.

É no espaço público, sob a luz da publicidade, que se decide (na maior parte das vezes, já se encontra decidido) quem tem e quem não tem o direito de aparecer, quem pode pretender ser respeitável (mesmo que falhe) e quem sequer pode nutrir tal pretensão. Como o filósofo francês Michel Foucault (1922-1984) disse certa vez, "não é o ímpeto para o prazer que é insuportável, é o despertar feliz". Desde que vivamos como acossados por ímpetos sexuais degenerados, que nossas formas de vida e de relacionamentos sejam marginais, feitos às escondidas e fugazes, tudo se encontra sob a mais perfeita ordem. Quando as sombras se tornam insuportáveis e se quer ir à luz do dia, então é preciso saber que obstáculos terão que ser enfrentados. É quando o gueto, a marginalidade, a fugacidade dos relacionamentos escondidos, se tornam o intolerável, aquilo que não se pode mais suportar, que as lutas começam. Harvey Milk é um importante personagem de um momento assim. Um homem comum, bem adequado à vida nas sombras, que, graças a alguns acontecimentos, é lançado à luz do dia e se vê forçado a ter que sobreviver nela. O que era um mero evento privado e pessoal, a iniciativa de abandonar o velho emprego e abrir um estabelecimento comercial próprio ao lado de seu parceiro, se torna um evento público e político. Em seu caso, essa iniciativa era uma afronta à ordem estabelecida e ele teria que lutar se quisesse levá-la adiante. Foi o que fez. O lugar que antes ocupava no mundo se lhe tornou intolerável e sua vida, daquele momento em diante, estava absorvida na esfera do que é público, do que concerne a muitos. Insuspeitas alianças se tornam possíveis, como a que é conseguida logo no início, com os caminhoneiros e a com os idosos do lugar.

Começa com ele mais um capítulo das lutas pelos direitos civis, pelo direito de viver à luz do dia, fora da marginalidade. As chamadas minorias não são entidades que têm direitos apenas por serem grupos minoritários. O que a história de Harvey Milk nos mostra é que a luta pelos direitos civis, se une grupos heterogêneos como gays, idosos e caminhoneiros, o faz a partir das dificuldades que esses encontram para fazer valer suas reivindicações no espaço público. E essas reivindicações não nascem senão daquilo que até então era um modo aceitável de vida, mas que tornou-se intolerável. Ele não foi desde sempre intolerável, mas veio a se tornar tão incômodo a ponto de fazer a vida que até então se levava indigna de ser vivida. As lutas pelos direitos civis são lutas para conquistar no espaço público um lugar para esses modos de vida que começam a emergir. O que muitas vezes resta esquecido e obscurecido é que, quando os famintos ser reuniram ante o czar, na Rússia pré-revolucionária, eles não eram movidos por uma "consciência de classe", mas pela fome. Queriam apenas comida. Sua vida havia se tornado insuportável. Quando os idosos do Castro deram apoio a Milk, foi porque perceberam nele apoio para fazer o lugar em que viviam um lugar onde poderiam viver uma vida diversa, com mais mobilidade e mais liberdades. Tal como Milk, não precisavam resignar-se a uma vida marginal, mas podiam ansiar por um espaço mais amplo onde se mover e viver.

sábado, 1 de novembro de 2008

Dos reflexos involuntários

Quando ser gay atrapalha. Digo, quando todo o esforço que precisamos fazer por sermos gays, para sair do armário, para se aceitar, para ser aceito, quando tudo isso deixa em nós traços indesejáveis. Ação afirmativa. Se foi preciso muito esforço para se afirmar gay, essa característica acaba sobressaindo ante as demais. Ao lutar contra a rejeição que quer ver em mim, antes de mais nada, um ser pervertido ou algo que o valha, faço de mim mesmo - pressupondo um esforço bem-sucedido - um gay bem resolvido. Mas, em geral, isso não basta. Nós, na maioria das vezes, não somos tão bem resolvidos assim. Começamos a afirmar continuamente para nós mesmos que somos gays, fazemo-lo em nossos gestos, em nossas roupas, em nossos gostos, em nossas opiniões, por aqueles com quem andamos, nos lugares que frequentamos, no modo como nos portamos com aqueles de fora do "mundinho" - a expressão é reveladora. Ser aceito. Mais completo seria dizer: ser aceito no mundo. E mundo é algo compartilhado. Não fosse assim, não sentiríamos a dor da rejeição. A rejeição é uma forma de reconhecimento, de reconhecer e ser reconhecido pelos outros.

Gueto. Viver no gueto não é algo bom. O gueto era uma forma de os nazistas restringirem a circulação dos indesejáveis, daqueles que eles não queriam que contaminassem os demais com sua convivência. O gueto faz um recorte no mundo, cria um "mundinho" fechado que, se "protege" quem está dentro de quem está fora (vale lembrar que o gueto era só o prelúdio do que estava por vir), "protege" quem está fora de quem está dentro. O gueto é um modo de não fazer parte do mundo estando ainda nele. Espaços de convivência para aqueles a quem à luz do dia foi negada. Estratégia válida e importante, que fique claro. Mas estratégia desenvolvida por conta de situações adversas. A sombra só abriga quando a luz é demasiado hostil. Mas avanços foram feitos, vitórias conseguidas. E o problema já não é tanto (que me seja perdoado o clichê) sair do gueto, mas fazer com que o gueto saia de nós. Formas de pensar são mais difíceis de modificar do que alguns gostariam. E nossas formas de pensar (e não apenas o que falamos da boca para fora) moldam nossos modos de ser e agir. Todo mundo já ouviu que é possível estar só mesmo em meio a uma multidão. É possível estar no gueto mesmo estando fora dele, é possível agir como quem está sendo questionado por ser gay quando nenhum movimento nessa direção foi feito pelos outros. Libertar-se disso exige muito esforço. Não se amadurece de graça. Estou convencido de que é preciso e que vale a pena dedicarmos um tempo de nossas vidas para pensarmos nisso, para que sejamos capaz de perceber em nós os traços do gueto, para que baixemos as armas quando elas não são necessárias. É o problema de ter sido chamado ao combate: nos momentos onde há paz, a tensão da batalha ainda permeia nossos nervos. Não somos apenas gays, não precisamos incessantemente dizer para nós e para os outros que somos gays e não temos nenhum problema com isso. Tal só é necessário quando somos confrontados negativamente por sermos gays. Não faz sentido gritar que tenho orgulho de ser gay na cara de quem não me censurou por isso. Seria como sairmos por aí gritando na cara de cachorrinhos, gatos e passarinhos que somos humanos e nos orgulhamos disso. A obrigação de reagir deixa marcas e pode virar um reflexo involuntário e automático, que surge mesmo quando não é necessário. Nesses momentos, nossos reflexos nos traem, esquecemo-nos de que somos muito mais coisas do que gays, de que são nossos inimigos que querem que sejamos vistos antes de mais nada como gays (foram os nazistas que estamparam triângulos rosas nos gays, e não o contrário). Cegos pelo calor da batalha, não temos mais olhos para as possibilidades da paz.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Joga pedra na Geni

Foi dada a largada para o segundo turno das eleições municipais. Foi aberta também a temporada de baixarias e caça às bruxas que alguns insistem em perpetuar. Em São Paulo, Marta Suplicy insinua em seu programa que seu adversário, Gilberto Kassab, é gay. Uma voz de fundo, em propaganda na TV, pergunta: "Sabe se ele é casado? Tem filhos?" ou ainda "Será que ele esconde mais coisas?". Vinda de quem vem, a baixaria é também exemplo de cinismo sem par. Lamentável! Aqui no Rio de Janeiro, cabos eleitorais de Eduardo Paes montam "movimentos populares" e fazem campanha difamatória contra Fernando Gabeira buscando associá-lo às drogas e aos gays. Findo o primeiro turno, Crivella deixa seu sucessor na difamação, por debaixo dos panos e não de cara limpa, diga-se de passagem. Estou longe de achar que o melhor caminho para os movimentos gays é a máquina pública. Direitos precisam ser requeridos e defendidos, mas não é vinculando nossas reivindicações a legendas partidárias que conseguiremos avanços. Entretanto, algo chama a atenção nesses episódios no Rio e em São Paulo. Antes de tudo, tratam-se das duas maiores cidades do país, ambas se gabando de seu (suposto) cosmopolitismo e vanguarda de pensamento. Se nas nossas cidades mais cosmopolitas a campanha municipal se faz com insinuações de homossexualidade entre os candidatos, nosso cosmopolitismo está mais é para provincianismo megalomaníaco. É bom ficarmos atentos, pois os interessados em reforçar a imagem negativa dos gays não pestanejam em usá-la contra seus adversários políticos. Mas, com ainda mais força, devemos estar atentos para não cair na armadilha aparentemente tentadora de buscar para nós um campeão nas fileiras partidárias. Se os movimentos gays pretendem ter alguma força, é preciso saber que eles não são e não podem ser movimentos "políticos", no sentido corriqueiro do termo. No mais, vale lembrar, na hora de votar, não esqueça de que você é gay, mas se lembre também de que você não é apenas gay. Do contrário, estaremos apenas assumindo para nós o estereótipo do gay cujo único interesse são suas práticas sexuais.

Post, no blog do Noblat, onde o jornalista comenta os episódios no Rio e em São Paulo:
http://oglobo.globo.com/pais/noblat/post.asp?t=marta_escolheu_pior_caminho_para_perder_eleicao&cod_post=132420&a=111

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Das muitas diferenças

Falamos muito em diferença, em diferentes. Há quem fale no deslocamento do discurso, da igualdade para a diferença. Mas pouco se fala numa forma de diferença que é fundamental: uma que desde sempre já se instaurou entre nós, pois diz respeito ao modo como nos posicionamos diante dos acontecimentos, e que, por isso mesmo, diz respeito a cada um na sua singularidade - é um dos principais fatores que a constitui, na verdade. Aquela diferenciação que dá origem à clivagem entre fracos e fortes, corajosos e covardes ou temerários, justos e injustos. Não há politicamente correto que possa encobrir que, por mais que digamos que toda forma de vida vale a pena, não temos como considerar como válidas ou boas todas as formas com que cada um se posiciona em sua vida. Quem consideraria válida (ou, o que evidencia ainda minha afirmação, se sente à vontade em afirmar publicamente que considera válida) a decisão de alguém que, tendo sofrido contínuas injustiças de seus familiares, decide, por isso, matá-los? Do mesmo modo, quem considera boa a atitude daqueles que, diante de situações adversas, choramingam e praguejam sem nada fazer para tentar mudá-la? Ou ainda, quando diante de alguém que viveu uma fatalidade incontornável, a qual atitude se dá mais valor, à daquele que dizemos - sintomaticamente - que a suporta com dignidade, ou à do que se deixa abater até o esgotamento de todas as forças? Admiramos aqueles cujas forças se esgotam, ainda que a batalha seja perdida, numa luta valente e censuramos aqueles cujas forças se esgotam não pela tensão, mas pela lassidão. Diferenças que fazem diferença. Não apenas porque constituem exemplos e se tornam fontes capazes de alimentar atitudes semelhantes, mas também porque são diferenças que evidenciam que para nós nem toda diferença está no mesmo nível - não está nem pode estar. Nem tudo é válido, nem tudo é bom, nem tudo é desejável. Não é, não pode ser, não deve ser, é bom que não seja. Bastaria lembrar que a tolerância, se não quer ser apenas um discurso vazio, mas uma atitude verdadeira, não pode tolerar a tudo, mas tem que combater a intolerância, e não apenas ser indiferente a ela. Nem tudo é válido ou bom, o que não quer dizer que não haja discordâncias entre o que se considera bom ou válido, mau ou inválido.Trata-se apenas de reconhecer que todos os mundos possíveis não podem ser ao mesmo tempo, que, por vezes, é preciso decidir entre algo bom e algo mau, mais ainda, entre duas coisas boas, qual delas é a melhor ou mais importante.

Ser gay é ser diferente, é não ser hétero. Mas a definição pode ser positiva também, e não meramente negativa. Ser gay é, a lembrar da significação do termo, ser alegre, não ser alguém infeliz com seu desejo e com as possibilidades que este lhe abre. Ser gay pode ser assumir uma atitude "camp" e debochar da associação da homossexualidade com a feminilidade. Ser gay pode ser recusar a posição de vítima de um desejo torpe, e dizer: "ainda que não tenha escolhido ser gay, se hoje pudesse fazê-lo, escolheria ainda assim ser gay". A preferência pelo termo gay, em vez do termo homossexual, muitas vezes significou a luta por fazer da homossexualidade não apenas uma condição do desejo (não apenas uma orientação sexual), que é objeto de saberes especializados, mas também - e primordialmente - uma questão ética. Sou homem e gosto de homens, ponto. E então, o que se segue? O interminável questionamento sobre a "origem" desse meu desejo? Ou a questão muito mais urgente e produtiva sobre que tipo de relações são então possíveis para mim? Como um homem pode se relacionar amorosamente com outro homem? Quais vantagens e desvantagens há em não se ter um código firmemente estabelecido dizendo quais papéis cada um tem que assumir na relação? Quais percepções se formam a meu respeito e quais relações a elas estão ligadas? E, mais importante, de quais modos posso lidar com isso? Em suma, como viver a minha vida? Dadas as circunstâncias que me constituem, que tipo de pessoa quero ser, e o que tenho que fazer para tal? Ser gay é, antes de tudo, uma questão ética. Nosso desejo não é um entrave em nossas vidas, mas mais uma das circunstâncias que perfazem os limites dentro dos quais temos que dar forma a nós mesmos, viver de um modo e não de outro, sermos mais ou menos corajosos ou fortes, mais ou menos razoáveis ou inteligentes, mais ou menos cuidadosos do modo como temos vivido. Ser gay não é uma fatalidade, é simplesmente mais uma das coisas que nos obrigam a ter que dar a nossas vidas uma forma. O melhor que podemos fazer é não simplesmente nos deixarmos levar pelo curso dos acontecimentos, mas refletir sobre quem temos sido e o que podemos fazer de nós mesmos. E isso é pensar na diferença - na diferença que há em cada um de nós, entre o que somos e o que podemos ser.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Por uma certa banalização

Visibilidade. Eis aí um tema interessante para nós gays. Pode até ser que não se saiba muito bem o que se quer dizer com isso, mas é certo que todos sabem que devem ser a favor. Assim diz o bom tom, digo o politicamente correto (muito mais coercitivo que o bom tom, já em desuso). Mas este post não é para avaliar nossas formas atuais de coerção de pensamento e expressão. A idéia é falar da tal visibilidade. Em postagens anteriores já afirmei que ela é importante, mas isso não basta. Afinal de contas, de que falamos quando falamos em visibilidade? Visibilidade de quê? Para quem? De que modo? Para quê? Bom, comecemos pela última questão, pois ela dará o tom das demais. Antes de lutar por algo, é preciso saber o que se quer com isso. Quando falamos de gays, falamos de um grupo enormemente variado de pessoas, nem todas dispostas a assumir o papel de rebeldes sem causa: é preciso determinar o fim almejado pela tal visibilidade. Ponto nevrálgico e objeto de disputa, como sempre é tudo aquilo que é determinante em nossas vidas. Uma posição que me parece razoável - e que é a que, até que me convença do contrário, defendo - é a de que a visibilidade deve contribuir para uma certa banalização do reconhecimento dos gays, de sua existência, de sua presença, de suas relações amorosas. Ok, o glamour, as divas e, com isso, uma certa visibilidade diferente da que defendo sempre fez parte do universo gay. Tudo bem, mas esse tipo de visibilidade não pode ser bandeira de luta, e me interesso aqui pela visibilidade em nome da qual os gays, organizados ou em iniciativas individuais, podem defender enquanto gays, e não aquela pela qual podem batalhar como indivíduos. Mas, salvo engano, ninguém defendeu esse tipo de posição até hoje. Falei nela propositadamente, porque me parece que não é muito distante dela um certo anseio (ele nem sempre é dito, talvez não seja totalmente consciente, mas é presente) de que a tal visibilidade contribua para que nós sejamos vistos de modo "positivo" pela sociedade. Escolhi falar em banalização justamente porque tendemos a torcer o nariz para essa palavra. Ninguém quer ser banal, quer ser especial, legal, em suma, bem visto. Mas não considero que isso seja nem uma boa estratégia, nem um objetivo justo. Se somos gays, antes de mais nada, somos seres humanos, com tudo que isso implica. Há gays ricos, pobres, mesquinhos, generosos, liberais, socialistas, social-democratas, inteligentes, nem tão inteligentes, efeminados, machões, bonitos, feios, justos, injustos, honestos, aproveitadores, simpáticos e antipáticos. Nada mais banal, nada mais corriqueiro, nada mais evidente. Se desde há muito se construiu uma imagem depreciativa do homossexual (aliás, o termo "gay" vem justamente da tentativa de dar uma coloração mais leve a essa imagem), não me parece que seja fazendo o exato inverso que iremos longe, não agora, pelo menos. Parece-me que, hoje, o mais importante é que lembremos a nós mesmos e aos outros que nós, enquanto gays, não somos nem melhores nem piores que ninguém, que ser gay não é um fator determinante no que diz respeito à moral, à inteligência, à beleza, à sociabilidade. Somos gays, sim, somos alegres, no sentido de que uma parte significativa de nós não faz a menor questão de assumir a imagem do infeliz consigo mesmo, do "desadaptado", do coitadinho, da vítima indefesa. E, como tais, não queremos a pena de ninguém, mas apenas que se nos reconheçam como pessoas, como quaisquer outras. O importante é possamos lutar para que os outros não nos olhem, antes de mais nada, como gays, como se estivéssemos portando continuamente um triângulo rosa no peito. Sim, sou gay e não tenho problema com isso, mas sou um bocado de outras coisas que gostaria que não fossem obscurecidas porque todo mundo acha que ser gay é o que há de mais interessante em mim. Somos gays e não estamos sozinhos, é bom que os preconceituosos saibam, mas não somos apenas gays.

Assim sendo, a visibilidade pela qual devemos lutar deve ser, sim, a das conquistas jurídicas e legislativas que nos garantem igualdade de direitos com os demais cidadãos - ou seja, aquelas necessárias para que sejamos reconhecidos como cidadãos plenos, nem mais nem menos favorecidos do que qualquer outro. Mas deve ser também, e num nível mais amplo porque não restrito aos meios de comunicação de massa, a visibilidade invisível do banal, a presença do que não se faz notar simplesmente porque não é percebida nem como "fora de lugar", nem como "excepcional". E isso é o mais difícil, porque depende de que nós saibamos distinguir o momento de se insurgir e o momento de simplesmente viver nossas vidas, de que desenvolvamos a antiga virtude da prudentia, do saber fazer o certo na hora certa. Exercício difícil, mas, parece-me, indispensável. E é por essas razões que, vez por outra, me incomodam os protestos contra certos personagens da televisão. Ah, tal personagem contribui para o estereótipo do gay efeminado e fútil. Ora, certamente que sim, mas há gays efeminados e fúteis e, se me sinto no direito de me indignar quando dizem que todos os gays são assim, acho razoável que o gay efeminado e fútil se sinta discriminado quando as organizações gays dizem que os gays não querem ser identificados a essa imagem. Então os gays não efeminados devem cruzar os braços e deixar que a secular figura do "invertido" grace sem freios? Não, oras. Basta que se use um pouco mais de imaginação. Quem disse que o único mecanismo de que dispomos são protestos contra emissoras de televisão? Até porque, não é muito difícil ver que esses protestos não atingem plenamente seu objetivo. Imagens como essa não desaparecem simplesmente, precisam ser confrontadas com outras. Do contrário, trocaremos, como já vem sendo feito, a imagem do gay efeminado e fútil pela do gay bem sucedido de classe média, com altos toques de assepsia e falta de graça. Se nem todo gay é subversivo, nem todo gay é sem graça. Por último, é preciso lembrar que a visibilidade que queremos não é voltada apenas para os não gays, mas também para nós mesmos, sejamos assumidos ou não. Se a imagem do invertido pôde, num delicado jogo de desafio e aceitação, ser o modelo para o comportamento de tantos de nós, os comportamentos que adotarmos, as imagens de nós que criarmos em nossas vidas, em nossas declarações, em nossos escritos, em nossas obras plásticas e cênicas, estarão expostas ao mesmo delicado jogo, serão elementos a mais nas complexas redes de relações através das quais se dá a formação de nossa identidade, dos modos como somos, nos vemos e somos vistos.